Casal de São Simão - Um novo sentir coletivo

Apesar de serem médicos, engenheiros, directores comerciais e de outras profissões liberais, quando estão em Casal de S. Simão, aldeia que recuperaram com as suas próprias mãos, são simplesmente um grupo de amigos que construiu uma nova comunidade num “refúgio de pedra”. Este sentir colectivo é vivido intensamente, e já se alarga a outra Aldeia do Xisto.


À entrada da aldeia Casal de S. Simão, no concelho de Figueiró dos Vinhos, estavam mais de 10 carros estacionados. Mas a aldeia parecia deserta. Onde estaria toda aquela gente? Ao longe começa a ouvir-se um burburinho. Dobrando uma esquina da rua principal que atravessa a aldeia surgem... balões?! O som inconfundível de uma festa vem de uma casa pejada de coloridos balões, pendurados nas varandas e janelas. É lá que estão todos. São mais de 20 pessoas que vieram a casa do Luís Serafim e da Dina Amaro, celebrar o primeiro aniversário do seu filho.
O ambiente é descontraído e familiar, como se todas aquelas pessoas se conhecessem por morarem juntas na aldeia desde sempre. O que é quase verdade e que, em parte, explica a história recente de Casal de S. Simão. É verdade que aquele grupo de amigos se conhece há muitos anos, mas nenhum deles é originário dali. Vêem da Marinha Grande, Porto, Leiria, Lisboa, Parede, e de outros centros urbanos do país. São engenheiros, empregados bancários, directores financeiros, directores comerciais, médicos, professores... Para eles aquela aldeia é uma segunda casa, tão ou mais importante do que aquela onde habitam durante a semana, nas cidades. Praticamente todas estas casas em pedra foram recuperadas ao longo dos anos com o seu próprio esforço, físico e financeiro. E é também ali que se juntam praticamente todos os fins-de-semana, nas férias de Verão, feriados, e em regra sempre que podem, dinamizando a aldeia com uma nova forma de vivência comunitária

Grupo de amigos

Foi há mais de 14 anos que o primeiro amigo do grupo, Aníbal Quinta, comprou uma casa em Casal de S. Simão. Na altura, a maior parte das habitações estava praticamente em ruínas, mas mesmo assim passou a palavra aos outros sobre a aldeia que tinha “descoberto”. António Fael foi outro desses pioneiros. “Houve um ano que passámos todos os fins-de-semana aqui a trabalhar, com os amigos a ajudar, nem tivemos férias”, recorda. Durante anos, António Fael reuniu os materiais de construção certos, desde lousas a pedras e madeiras, até ter um stock que lhe permitisse avançar para a obra que tinha idealizado. Hoje a sua casa reflecte todo o carinho e cuidado de uma recuperação que já fez esquecer a memória da ruína. O mesmo processo de entreajuda e dedicação foi repetido nas cerca de 12 casas adquiridas e recuperadas subsequentemente, também por amigos. “Encaramos isto como uma parceria: juntamo-nos e vamos todos buscar pedra para este, ou vamos tirar entulho da casa daqueloutro, e há mesmo pessoas que, apesar de ser um trabalho duro, vêm cá só mesmo para ajudar, embora depois acabe tudo em festa, claro”, refere Luís Serafim.
A selectividade quanto às pessoas que foram “convidadas” a conhecer a aldeia ultrapassa a aparentemente redutora ideia de quererem manter um grupo isolado – até porque recebem qualquer visitante com uma sincera hospitalidade e simpatia. Essencialmente, o seu objectivo foi reunir um conjunto de pessoas em quem confiassem a partilha dos mesmos valores, nomeadamente ao nível da ideia de intervenção a efectuar na aldeia. “Desde logo disciplinámo-nos no sentido de reconstruir mantendo a traça original e utilizando os materiais da região, por exemplo andámos a medir as janelas todas e arranjámos uma medida média a aplicar em todos os casos; eu sacrifiquei um pouco a altura do pé direito da minha casa de banho para não fugir a esse padrão”, exemplifica Luís Serafim. Não foi uma regra imposta, foi um ideal partilhado. Um ideal que hoje se materializa numa coerência admirável na requalificação das casas, na atenção aos pormenores, na criação de espaços em todas as casas onde se pudessem reunir em ocasiões festivas, ou simplesmente olhar para a serra e para as fragas que se despenham no riacho lá em baixo. “Dá um gozo especial ver tudo isto, porque foi feito com o nosso esforço e sentimos que as casas cresceram connosco”, explica Luís Serafim.
O grupo de amigos gerou-se em torno do Núcleo de Espeleologia de Leiria, do qual muitos são membros fundadores. E o facto de todos se conhecerem há largos anos facilita não só a disponibilidade (e a própria disposição) para o tipo de trabalho duro que tiveram de executar para recuperar cada uma das casas, mas principalmente acentua o usufruto posterior. No fundo, esse é o verdadeiro móbil de todo este investimento de tempo e esforço: disporem de um local “especial” onde se reúnam todos. “Somos amigos há já muitos anos e o que fizemos foi transportar esse grupo para aqui, porque é um sentir colectivo que queremos manter”, frisa António Fael. E acrescenta, explicando como se processa esse sentir: “O nosso sistema é ter sempre duas ou três casas centrais, onde acaba sempre por estar toda a gente e onde fazemos as refeições em conjunto, até porque uns trazem a carne, outros as bebidas, outros fazem a sopa...”.

Nova comunidade

A aldeia Casal de S. Simão voltou a ganhar vida com os novos proprietários, que assim se juntam aos três habitantes permanentes. A sua vivência da aldeia ultrapassa a mera perspectiva da casa de fim-de-semana que só é utilizada enquanto forma de isolamento do mundo exterior e, muitas vezes, dos próprios vizinhos. Aliás, criticam o facto de, na altura dos incêndios, nas outras localidades cada um só defender o que é seu. Nesta aldeia o fogo foi combatido de frente, por todos e a favor de todos. Os actuais habitantes de Casal de S. Simão formam uma autêntica comunidade e é assim que vivem (n)a aldeia. “Eu nasci e cresci numa aldeia perto de Leiria chamada Milagres, mas sempre me senti como um peixe fora de água na cidade, por isso é natural que me sinta muito bem aqui”, comenta António Fael. “Galinha do campo não quer capoeira”, brinca Lina Ferreira, a sua companheira.
A aldeia volta a ter vida, mas não há aqui qualquer perspectiva saudosista ou retrógrada de viver como antigamente numa lógica de fundamentalismo rural em regressar às origens. “Viver na aldeia mas não tanto, é preciso não esquecer que estamos no século XXI”, sublinha António Fael. Para este habitante, a opção tem antes que ver com estilo de vida e não com tipo de vida: “Sempre estive ligado a actividades de ar livre e este é um sítio que conjuga isso tudo: estamos perto do calcário, temos algumas grutas onde fazemos espeleologia, temos a serra onde fazemos BTT e percursos pedestres, barragens para fazer canoagem... é um sítio ideal”. Atendem telemóveis, usam PDA, recorrem a câmaras digitais para filmar a festa, o computador portátil debita música ambiente no andar de cima, e é exibido um DVD sobre o primeiro ano de vida do filho de Luís e Dina como prenda de aniversário. Nos dias de hoje, este estilo de vida não é de todo incompatível com todas as necessidades espirituais supridas por uma vivência em ambiente rural, nomeadamente para crianças que passem a maior parte do tempo no meio urbano. “Nós cuidamos dos terrenos, fazemos pão em forno de lenha, por exemplo, e é importante que as crianças estejam em contacto com este tipo de vida mais próximo da terra, mais natural”, explica Luís Coelho. E não só para as crianças, já que para Carlos Neves, o mais recente proprietário da aldeia, o que o atrai “é o contraste com o que vivemos em termos urbanos no dia-a-dia, é importante termos outras trajectórias, outros interesses e sensações que equilibrem a nossa maneira de estar e a nossa vida”.
A experiência em Casal de S. Simão tem corrido tão bem que muitos, como António Fael, ponderam mesmo a hipótese de lá se fixarem definitivamente. Até porque o grupo de amigos está a pensar em consolidar esta vivência avançando para a gestão conjunta de um projecto de turismo de aldeia, para o qual até já têm nome: Refúgios de Pedra. Só falta mesmo direccionar algumas infra-estruturas nesse sentido. E o mais interessante é que o seu projecto começa já a englobar também a vizinha Aldeia do Xisto de Ferraria de S. João, no concelho de Penela. “Vai-se gerar aqui uma ligação muito estreita”, promete António Fael. Alguns elementos deste grupo de amigos começaram já a adquirir e a recuperar casas nesta aldeia, fazendo alastrar o seu estilo muito particular de vivência comunitária. O território do xisto agradece.

Bruno Ramos
(texto publicado na Revista Aldeias do Xisto Outono/inverno 2005)